Minicurso: As poetAs brasileirAs

Quem me conhece, sabe que insisto na questão: o espaço das mulheres dentro da literatura.

Não apenas dentro da literatura, acredito que, infelizmente, estamos longe de termos espaços igualitários para mulheres e homens.

Assim, comecei a pesquisar poetas que, por questões estéticas, temáticas ou sociais, são ignoradas pela história da literatura. São inúmeras. Acredito que resgatar essas poetas é uma questão atual de resistência.

Por isso, criei o minicurso: as poetas brasileiras. Três encontros quinzenais, nas manhãs de sábado, com um café da manhã delicioso. Falaremos sobre poetas desde os anos 1700 até os dias atuais.

Inscrições através do Cinese.

Vem, vem, vem!

 

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Traduções de Ingrid Bringas

conheci a poeta mexicana Ingrid Bringas por acaso. numa noite rolando o facebook, vi um post com seu poema Retrato de família y me encanté. o traduzi em seguida e postei: o encantamento foi geral.

abaixo, alguns poemas com suas traduções, feitas por mim. foram publicados também em mallarmargens.

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NADA ME HA SIDO AJENO

Perdimos el rastro de nosotros el significado de nosotros diáspora
el amor no ha sido atendido
tenemos una habitación en el pecho un corazón de cerdo
una tierra que nos ha sepultado todos estos años llena de sueños
/espantosos
de risas de una fiesta que nunca termina
yo los oigo gritar con su piel anaranjada de frente al sol
y su pregunta es:
¿que has desenterrado de ti todos estos años?
mi tercer ojo me dice que nunca he estado sola
que sólo lo que queda es el rastro de nosotros
(exilio, exilio)
nada de lo que sepulte debe morir.

NADA ME FOI ALHEIO

Perdemos o rastro do nós o significado do nós diáspora
o amor não foi atendido
temos uma casa dentro do peito um coração de porco
uma terra cheia de sonhos que nos sepultou todos estes anos
/espantosos
de risos de uma festa que nunca acaba
eu os ouço gritar com sua pele alaranjada em frente ao sol
e sua pergunta é:
o que desenterrou de si todos estes anos?
meu terceiro olho me disse que nunca estive sozinha
que só o que permanece é o rastro do nós
(exílio, exílio)
nada que seja sepultado deve morrer.

RETRATO DE FAMILIA

Cuando sea grande quiero bailar como mi madre
amar como mi madre
gritar como mi madre
sonreír como el perro que nunca tuvo
ponerme su falda y decir: casi soy como mi madre
más desquiciada, menos amada
más alta que mi madre
quiero tener los pómulos de mi madre

callar como mi madre mas no estar ausente

llevar en el pecho escorpiones, cigarros doblados por el peso del olvido

esas piernas que son dos murallas

recógeme debajo de la cama madre quiero tener tus ojos de madera.

RETRATO DE FAMÍLIA

Quando eu for grande quero dançar como minha mãe
amar como minha mãe
gritar como minha mãe
sorrir como o cachorro que nunca teve
vestir sua saia e dizer: quase sou como minha mãe
mais esquecida, menos amada
mais alta que minha mãe
quero ter as maçãs do rosto de minha mãe
calar como minha mãe, mas sem estar ausente
levar no peito escorpiões, cigarros dobrados pelo peso do esquecimento
as pernas que são duas muralhas
me busque debaixo da cama mãe quero ter seus olhos de madeira.

BETA O VHS

Un video porno también es un poema
las cámaras de TV están tristes
un poema es migajas para pájaros
el porno es una bufanda tejida para extraños
te muerde la mano el dolor visionario del futuro
no te dice nada la canción prohibida, las heridas de tu ciudad
un video porno también es un poema
donde escuchas voces interiores, un campo minado de nostalgia
amarnos de muerte natural
porque el amor es un grito consumido en la niebla
un video porno también es un poema que le pone un altar a nuestros
/cuerpos deformes.

BETA OU VHS

Um vídeo pornô também é um poema
as câmeras televisivas estão tristes
um poema é migalhas para pássaros
pornô é um lenço tecido para estranhos
a dor visionária do futuro te morde a mão
a canção proibida não te diz nada, as feridas da sua cidade
um vídeo pornô também é um poema
onde se escuta vozes interiores, um campo minado de saudades
nos amarmos de uma morte natural
porque o amor é um grito que ressoa na névoa
um vídeo pornô também é um poema que colocamos no altar
/corpos disformes.

CUL DE SAC

Créele a todas las cucarachas
Créele a todos los muertos que conocen tus poros cuánto te amo
porque en el amor está el vicio
risa de lince
puedes poseer toda mi tierra sus asfaltos y fábricas
¿a quién perteneceré cuando me muera?
cuando mi aliento sea una ola que rompe la boca de los extraños
créele a las bombas

créele a los cuadernos que son memorias con los ojos cerrados
masticar las piedras cuando me muera eso quiero
el amor es una dama sumisa
créele a las voces de tu cabeza ellas te dirán que el amor es una
bolsa
de basura
créele a los pájaros mojados de tu boca
vocablo líquido
créele a el océano que no es el destino el que nos abraza.

BECO SEM SAÍDA

Creia em todas as baratas
creia em todos os mortos que conhecem seus poros e o quanto te amo
porque no amor estão os vícios
sorriso de lince
seu asfalto e suas fábricas podem tomar toda minha terra
quando morrer a quem pertencerei?
quando meu hálito for uma onda que quebra na boca de estranhos
creia nas bombas
creia nos cadernos que são lembranças de olhos fechados
quando morrer vou querer mastigas as pedras
o amor é uma dama submissa
creia nas vozes que habitam sua cabeça elas te dirão que o amor é um
saco
de lixo
creia nos pássaros molhados da sua boca
vocabulário líquido
creia no oceano que não é o destino o que nos abraça.

Ingrid Bringas (Monterrey, México. 1985) Poeta mexicana, colaborou com diversas revistas nacionais e internacionais. Suas publicações são: La edad de los salvajes (Editorial Montea, 2015), Jardín Botánico (Casa editorial Abismos, 2016),  Nostalgia de la luz (UANL, 2016).

+mais: aquiuma leitura maravilhosa do poema Nada me ha sido ajeno feita pela Marília Moschkovitch.

Mulheres independentes que escrevem, editam, bordam e publicam

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Bate-papo com mulheres que escrevem, editam, bordam, publicam

A distribuidora de editoras independentes Rizoma organiza um bate-papo com 7 autoras na Biblioteca Mário de Andrade. Em comum, estas mulheres não só escrevem, mas batalham muito pela literatura feita por mulheres – editam livros, publicam revistas, traduzem, organizam festivais como o [eu sou poeta], organizam clubes de leitura, bordam poemas.

A conversa irá esmiuçar os projetos das escritoras, assim como propiciará a troca de experiências e o diálogo sobre autonomia na literatura. Uma longa meada aberta a quem quiser participar. Os livros das autoras estarão à venda no local e podem ser autografados.

Convidadas:
Aline ValekAna Rüsche, Jarid Arraes, Jeanne Callegari, Lilian Aquino, Maíra Mendes Galvão e eu.

Data: 28 de outubro, sexta-feira, a partir das 19h
Local: Biblioteca Mário de Andrade, Centro de São Paulo (SP). Área externa, entrada pela Av. São Luis.
Organização: Rizoma Distribuidora de editoras independentes
Gratuito. Esquenta literário, compre um livro e leve um drinque

*Texto de divulgação escrito por: Ana Rüsche.

como foi: [eu sou poeta]

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No último final de semana, aconteceu a primeira edição do festival literário [eu sou poeta] na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo.

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No sábado pela manhã a Jeanne Callegari mediou a oficina Lendo mulheres: a potência da poesia feminina. Discutimos poemas de diversas poetas, de vários lugares e épocas. Falamos sobre a definição de poesia feita por Pound: imagem, som, engenhosidade e buscamos isso na produção da Pagu, Marly de Oliveira, Mina Loy, Elisabeth Veiga, Hilda Machado, Mairéad Byrne e contemporâneas, como a Ana Guadalupe e Vanessa C. Rodrigues.

Aqui um poema de Mairéad Byrne, traduzido pelo Dirceu Villa:

Assim caminha o mundo

O soldado encontrou a mulher no meio do caminho.
“Você matou a minha filha”, ela disse.
“É, me desculpe”, o soldado respondeu.
“ Mas você lembra de que quando pedi água
Você recusou―
Não é jeito de tratar nem um cachorro.
Então me desculpe por sua filha ―
Espero que se desculpe pela água, também”.
“Não é a mesma coisa”, disse a mulher.
“Talvez não seja pra você”, disse o soldado.
“Mas quem sabe como a outra pessoa se sente?”
“Você estuprou e matou a minha filha”, disse a mulher.
“Não estuprei. Foi consensual”.
“Ela tinha seis anos”.
“Olha, tem erros dos dois lados.
A gente tem que viver com isso.
Sua filha se foi, é passado.
Agora você podia me arranjar um pouco d’água.”

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Após o almoço, a Ana Rüsche conduziu a abertura do festival, envolvendo os presentes em questões sobre criação, sobre os aspectos necessários para cada um continuar criando. Para mim, a palavra que ficou foi inevitabilidade. #eusoupoeta porque é inevitável.

Em seguida, conduzi com a Pilar Bu a discussão sobre o livro Do desejo, da Hilda Hilst. Tivemos a grande sorte de ter entre xs participantes da discussão, a Ana Lima Cecilio, editora da obra de Hilda Hilst na Biblioteca Azul. ❤

VIII

Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
desejo é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, em Caracol de Fogo.
desejo é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
desejo é Outro. Voragem que me habita.

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No sábado, tivemos ainda a mesa Tradução, mediada por Francesca Cricelli, e com participação de Ana Lima Cecilio, Maurício Santana Dias e Sarah Valle. Os participantes falaram sobre suas experiências traduzindo Elena Ferrante, Adrienne Rich, Hilda Hilst (para o italiano) e as peculiaridades de cada trabalho.

Encerramos o dia com boas cervejas e conversas no Las Magrelas

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No domingo, começamos o dia com uma oficina incrível de zines com a Júlia Francisca. Conversamos sobre o que é zine e colocamos a mão na massa, criando nosso próprio zine do [eu sou poeta].

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Às 14h, tivemos a mesa Poesia é resistência?, mediada pela Juliana Bernardo e com participações tão especiais da Jenyffer Nascimento, Tula Pilar, Geruza Zelnys e Jarid Arraes. As convidadas falaram sobre sua relação com a poesia, o que as motivaram a começar a escrever e como é ser mulher no meio em que vivem, além de seus projetos atuais. Terminamos essa rodada de discussão com as poetas fazendo leitura de seus trabalhos.

Aqui, um poema da Geruza Zelnys:

arte desnecessária

organizo uma semana
de arte
[sobre o meu corpo]
moderna

de linhas surrealistas abertas à visitação
cubos cúbicos públicos em expressionismos de ponta
instalações de dedos nonsenses nas extremidades d’um
palco bem no meio do umbigo teatro de arena livre
melodrama de máscaras nô manifestos pendurados nos bicos
pixo de piadas, idiossincrasias & outras antropofagias
genitais

desorganizo meu corpo
pr’uma semana de arte moderna
[já tão antiga]
bilheteria aberta & entrada franca
excursão de crianças do nono ano
divulgação boca na boca
mais nada

sobram-me os joelhos ralados e aftas
por debaixo dos lençóis e das línguas
uma coceira sem fim e uma cistite intersticial
diga-se de passagem: dificílima de diagnosticar.

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Finalizamos o domingo com a mesa Mulheres e invenção, com Fabiana Faleiros, Luísa Nóbrega, Dirceu Villa e Júlia Mendes, com mediação de Maíra Mendes Galvão. Falaram sobre o que consideram inventivo dentro da poesia e das artes, em geral, de como esse conceito de invenção não se desprende da vida do artista e também sobre mulheres que consideram estar nessa posição de genialidade. Leram trabalhos de Mairéad Byrne, Sarah Kane, Isabelle Eberhardt e Marquesa de Alorna.

Após, fomos conversar e tomar cervejas no Las Magrelas, onde estava rolando o Desamélia

Mais: estamos programando novas edições do [eu sou poeta] no Rio de Janeiro, Natal e Curitiba.
Acompanhem!

#leiamulheres, em Curitiba

Nesse mês de março, quando o projeto  Leia Mulheres comemora seu primeiro ano, teremos uma edição especial! Nacionalmente, discutiremos o livro Poética, da Ana C.

Em Curitiba, a discussão acontecerá dia 23 de março, às 19h30.
O encontro será na Escola de Escrita – Rua Riachuelo, 427. Centro.

Vem com a gente!

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[eu sou poeta]

[eu sou poeta]
Sobre o festival
A produção poética feita por mulheres é esquecida com insistência por boa parte da crítica literária, pela curadoria de festivais e antologias e, até mesmo, por poetas. Pensando nessa discrepância de tratamento, 11 poetAs de 7 cidades do país se uniram para fazer um festival literário que lance uma lupa sobre a questão.

[eu sou poeta] é um festival literário pensado para combater a invisibilidade da produção poética de mulheres. Entretanto, acaba por ser também um momento de análise e balanço sobre esta produção.

A primeira edição de [eu sou poeta] acontecerá em São Paulo, nos dias 19 e 20 de março. E são previstas edições em diversas cidades do país com mesas, oficinas e debates que tragam questões urgentes e necessárias para a atualidade, como lugar de fala, estética poética, inventividade, tradução, produção cultural e literária que evidencie a obra de mulheres poetas. [eu sou poeta] e você, é poeta por quê?

Organizadoras: Ana Rüsche, Francesca Cricelli, Jeanne Callegari, Juliana Bernardo, Karine Kelly Pereira (São Paulo), Jéssica Balbino (Poços de Caldas), Lubi Prates (Curitiba), Maíra Mendes Galvão (Brasília), Nina Rizzi (Fortaleza), Pilar Bu (Goiânia) e Renata Corrêa (Rio de Janeiro).

PROGRAMAÇÃO

Dias 19 e 20 de março
Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)
Gratuita, sujeita a alteração.

Dia 19 março, sábado

10h: Oficina Lendo Mulheres: a potência da poesia feminina
Mediadora: Jeanne Callegari
30 vagas, para as primeiras pessoas que chegarem.

14h: Abertura

15h: Clube de Leitura
Mediadoras: Lubi Prates e Pilar Bu
Livro: Do desejo, Hilda Hilst
30 vagas, para as primeiras pessoas que chegarem.

16h: Tradução
Mediadora: Francesca Cricelli
Convidadas: Ana Lima Cecilio e Maurício Santana Dias.

18h: Sarau Microfone aberto

Dia 20 de março, domingo

10h: Oficina de fanzine: as línguas e os idiomas das mulheres
Oficina para mulheres conhecerem o que é fanzine e sua linguagem, aprender a publicar seus escritos com autonomia. Espaço de diálogo e troca de escritos, referências visuais e técnicas de publicação. O objetivo é reconhecer as diferentes vozes das mulheres e encontrar meios de falar com o mundo, publicar textos, etc.
Mediadora: Julia Francisca, autora da zine [nectarina]
Oficina destinada exclusivamente às mulheres, 30 vagas, para as primeiras que chegarem.

14h: Poesia é resistência?
Mediadora: Juliana Bernardo
Convidadas: Geruza Zelnys, Jarid Arraes, Jenyffer Nascimento e Tula Pilar

16h: Mulheres e invenção
Mediadora: Maíra Mendes Galvão
Convidadas: Fabiana Faleiros, Luísa Nóbrega, Dirceu Villa e Julia Mendes.

18h: Microfone aberto

19h: Encerramento: abraço geral​

Evento no Facebook, aqui.

 

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