você traz na boca
todo o gosto do mar
e eu tento adivinhar
inutilmente
quantos oceanos você atravessou
hasta aquí, hasta mi
quais oceanos você atravessou
hasta aquí, hasta mi
para guardar em si
tanta água, tanto sal
em cada gota de saliva.

você traz na pele
todos os tons da terra
e eu tento adivinhar
inutilmente
quantos continentes você percorreu
hasta aquí, hasta mi
quais continentes você percorreu
hasta aquí, hasta mi
para guardar em si
tanta cor & esse cheiro que acentua quando tempestades
em cada macromolécula.

você diz reconhecer
o gosto de mar que trago na boca
os tons de terra que trago na pele
fácil perceber então que
atravessamos percorremos
os mesmos oceanos os mesmos continentes
hasta aquí

: somos filhos da África

e tudo que contamos através dos nossos corpos
fala sobre nós, mas     no profundo da memória
guarda nossos ancestrais.

autocartografia

localizar no meu corpo
com uso de coordenadas
um ponto para acomodar esta dor.

um ponto     exato    para acomodar esta dor
onde ela já não doa tanto
até diminua
talvez se autodestrua

e eu sequer perceba.

localizar no meu corpo
com uso de bússola
um ponto para acomodar esta dor.

mas esse território que sou
quase inteiro marcado riscado avolumado
por cicatrizes se mapeou.

localizar no meu corpo
com uso deste mapa
um ponto para acomodar esta dor.

um ponto     exato     para acomodar esta dor

um ponto entre esse rasgo do norte da minha boca
e o sul do meu ventre

um ponto entre as feridas do leste e oeste esquecidos nas pontas dos meus dedos

um ponto     desocupado     entre minha cabeça e os pés
para acomodar esta dor

onde ela já não doa tanto
até diminua
talvez se autodestrua

ou eu apenas esqueça.

Para João Gabriel Oliveira.

você está na Rússia
onde sempre quis estar.

você está na Rússia
onde eu nunca estive.

assim, eu não posso precisar
a temperatura do seu corpo
neste inverno. assim, eu não posso precisar
se o branco do seu corpo, tão conhecido,
se confunde com a paisagem que você escolheu
e não sou.

você está na Rússia
onde eu nunca estive.

assim, eu não posso precisar
se as suas lágrimas
caso caiam
serão quentes, como aquelas que eu lambi, ou
imitarão flocos de neve indo ao chão.

você está na Rússia
onde sempre quis estar.

e eu continuo no Brasil
mas é um Brasil
que você jamais conheceu.

assim, você não pode precisar
se aqui agora minha carne apanha.
assim, você não pode precisar
se minha carne ainda tem aquela cor bronze possível em
30 graus ou se já é aquela carne apodrecida por resistir.

você está na Rússia
onde eu nunca estive.

e eu continuo no Brasil
mas é um Brasil
que você jamais conheceu.

assim, você não pode precisar
se caem lágrimas, quentes ou frias
dos meus olhos. assim, você não pode precisar
se é uma secura sem fim
embora não faltem motivos e ou vontade
de chorar.

você está na Rússia
onde sempre quis estar,
onde eu nunca estive.

eu continuo no Brasil,
um Brasil que você jamais conheceu.

Livrar-se: a jornada do escritor, em São Paulo

parece que o ano finalmente começou, não é mesmo? bora tirar a poeira dos planos e colocá-los para tomar um solzinho, enquanto  há verão.

é assim pra mim também! nas próximas semanas, falarei um pouco mais sobre oficinas e cursos que ministrarei em breve.

para começar, um projeto que amo, o Livrar-se: a jornada do escritor: a internet revolucionou o meio literário. há 20 anos atrás, no Brasil, era impensável alguma forma de publicação além do famoso papel, com alguma editora que se interessasse em investir no nosso trabalho de escritor. a labuta era árdua!

hoje, temos diversas formas de publicação, incluindo a possibilidade de se autopublicar, em zines e e-books, por exemplo. dependemos menos de editores e editoras. então, em contrapartida, ficam algumas perguntinhas em nossas mentes: como nos lançarmos nesse mar de possibilidades surgidas pós-anos 2000? quais as melhores ferramentas para chegarmos até o público dos nossos escritos?

assim, estou juntando pessoas que escrevem para participar do Livrar-se: a jornada do escritor e discutir, sobre nós-escritores (qual nossa voz?) e, a partir daí, pensarmos nos meios mais interessantes de nos livrarmos (carinhosamente) de nossa produção literária: livros, e-books, zines, revistas literárias, blogs e sites pessoais, redes sociais, entre otras cositas.

o Livrar-se: a jornada do escritor acontecerá em duas turmas:

presencial, em São Paulo, às quartas, das 14:00 às 16:00 e
virtualmente, em e-group, para quem mora fora das nossas redondezas 🙂

serão oito encontros, iniciando dia 1 de abril.

o investimento para a turma presencial é de 500 reais.
já para a turma virtual, o investimento é de 250 reais e ambos podem ser parcelados.

mais informações e inscrições para a turma virtual por: lubiprates@gmail.com

inscrições para a turma presencial, através do CINESE: http://www.cinese.me/encontros/livrar-se-a-jornada-do-escritor

tá esperando o quê? corre porque as vagas são limitadas!

compartilhe com seus amigos. 🙂

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Minicurso: As poetAs brasileirAs

Quem me conhece, sabe que insisto na questão: o espaço das mulheres dentro da literatura.

Não apenas dentro da literatura, acredito que, infelizmente, estamos longe de termos espaços igualitários para mulheres e homens.

Assim, comecei a pesquisar poetas que, por questões estéticas, temáticas ou sociais, são ignoradas pela história da literatura. São inúmeras. Acredito que resgatar essas poetas é uma questão atual de resistência.

Por isso, criei o minicurso: as poetas brasileiras. Três encontros quinzenais, nas manhãs de sábado, com um café da manhã delicioso. Falaremos sobre poetas desde os anos 1700 até os dias atuais.

Inscrições através do Cinese.

Vem, vem, vem!

 

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