como foi: [eu sou poeta]

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No último final de semana, aconteceu a primeira edição do festival literário [eu sou poeta] na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo.

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No sábado pela manhã a Jeanne Callegari mediou a oficina Lendo mulheres: a potência da poesia feminina. Discutimos poemas de diversas poetas, de vários lugares e épocas. Falamos sobre a definição de poesia feita por Pound: imagem, som, engenhosidade e buscamos isso na produção da Pagu, Marly de Oliveira, Mina Loy, Elisabeth Veiga, Hilda Machado, Mairéad Byrne e contemporâneas, como a Ana Guadalupe e Vanessa C. Rodrigues.

Aqui um poema de Mairéad Byrne, traduzido pelo Dirceu Villa:

Assim caminha o mundo

O soldado encontrou a mulher no meio do caminho.
“Você matou a minha filha”, ela disse.
“É, me desculpe”, o soldado respondeu.
“ Mas você lembra de que quando pedi água
Você recusou―
Não é jeito de tratar nem um cachorro.
Então me desculpe por sua filha ―
Espero que se desculpe pela água, também”.
“Não é a mesma coisa”, disse a mulher.
“Talvez não seja pra você”, disse o soldado.
“Mas quem sabe como a outra pessoa se sente?”
“Você estuprou e matou a minha filha”, disse a mulher.
“Não estuprei. Foi consensual”.
“Ela tinha seis anos”.
“Olha, tem erros dos dois lados.
A gente tem que viver com isso.
Sua filha se foi, é passado.
Agora você podia me arranjar um pouco d’água.”

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Após o almoço, a Ana Rüsche conduziu a abertura do festival, envolvendo os presentes em questões sobre criação, sobre os aspectos necessários para cada um continuar criando. Para mim, a palavra que ficou foi inevitabilidade. #eusoupoeta porque é inevitável.

Em seguida, conduzi com a Pilar Bu a discussão sobre o livro Do desejo, da Hilda Hilst. Tivemos a grande sorte de ter entre xs participantes da discussão, a Ana Lima Cecilio, editora da obra de Hilda Hilst na Biblioteca Azul. ❤

VIII

Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
desejo é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, em Caracol de Fogo.
desejo é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
desejo é Outro. Voragem que me habita.

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No sábado, tivemos ainda a mesa Tradução, mediada por Francesca Cricelli, e com participação de Ana Lima Cecilio, Maurício Santana Dias e Sarah Valle. Os participantes falaram sobre suas experiências traduzindo Elena Ferrante, Adrienne Rich, Hilda Hilst (para o italiano) e as peculiaridades de cada trabalho.

Encerramos o dia com boas cervejas e conversas no Las Magrelas

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No domingo, começamos o dia com uma oficina incrível de zines com a Júlia Francisca. Conversamos sobre o que é zine e colocamos a mão na massa, criando nosso próprio zine do [eu sou poeta].

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Às 14h, tivemos a mesa Poesia é resistência?, mediada pela Juliana Bernardo e com participações tão especiais da Jenyffer Nascimento, Tula Pilar, Geruza Zelnys e Jarid Arraes. As convidadas falaram sobre sua relação com a poesia, o que as motivaram a começar a escrever e como é ser mulher no meio em que vivem, além de seus projetos atuais. Terminamos essa rodada de discussão com as poetas fazendo leitura de seus trabalhos.

Aqui, um poema da Geruza Zelnys:

arte desnecessária

organizo uma semana
de arte
[sobre o meu corpo]
moderna

de linhas surrealistas abertas à visitação
cubos cúbicos públicos em expressionismos de ponta
instalações de dedos nonsenses nas extremidades d’um
palco bem no meio do umbigo teatro de arena livre
melodrama de máscaras nô manifestos pendurados nos bicos
pixo de piadas, idiossincrasias & outras antropofagias
genitais

desorganizo meu corpo
pr’uma semana de arte moderna
[já tão antiga]
bilheteria aberta & entrada franca
excursão de crianças do nono ano
divulgação boca na boca
mais nada

sobram-me os joelhos ralados e aftas
por debaixo dos lençóis e das línguas
uma coceira sem fim e uma cistite intersticial
diga-se de passagem: dificílima de diagnosticar.

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Finalizamos o domingo com a mesa Mulheres e invenção, com Fabiana Faleiros, Luísa Nóbrega, Dirceu Villa e Júlia Mendes, com mediação de Maíra Mendes Galvão. Falaram sobre o que consideram inventivo dentro da poesia e das artes, em geral, de como esse conceito de invenção não se desprende da vida do artista e também sobre mulheres que consideram estar nessa posição de genialidade. Leram trabalhos de Mairéad Byrne, Sarah Kane, Isabelle Eberhardt e Marquesa de Alorna.

Após, fomos conversar e tomar cervejas no Las Magrelas, onde estava rolando o Desamélia

Mais: estamos programando novas edições do [eu sou poeta] no Rio de Janeiro, Natal e Curitiba.
Acompanhem!

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