Traduções de Cindy Jiménez-Vera

Cindy Jiménez Vera 2015

Recentemente, traduzi, a pedido da Mallarmargens, poemas da Cindy Jiménez-Vera.

 

400 nuevos soles

Un periódico latinoamericano informa que Perú ofrece una bonificación de 400 nuevos soles a los empleados de gobierno que obtienen un grado universitario. Tengo tres de esos. Si hago la conversión de moneda, 400 nuevos soles peruanos son aproximadamente 153 dólares estadounidenses. Con eso, mi pareja y yo pagamos las facturas de electricidad y del agua por un mes. O no las pagamos y compramos comida. O no comemos ni tenemos servicios de luz y agua, y pagamos la cuenta del celular con algunos atrasos pendientes. O no hacemos nada de eso. Igual en Puerto Rico los huracanes y sus amenazas, nos dejan sin servicios de agua potable, electricidad, telecomunicaciones, y con alimentos de reputación dudosa. Mejor, fornicamos borrachos en el ojo de la tormenta. Él, despedido de una compañía que se fue a la quiebra. Yo, con dos trabajos que no suman uno, un vientre despoblado de hijos y algunos poemas con pocas palabras. Los bancos no saben de conversión de monedas. 400 nuevos soles es más de un año de amaneceres.

 

400 novos sóis

Um jornal latino-americano informa que o Peru oferece uma bonificação de 400 novos sóis para os empregados do governo que tiverem graduação. Eu tenho três. Se faço a conversão de moeda, 400 novos sóis peruanos são, aproximadamente, 153 dólares. Com esse dinheiro, meu par e eu pagamos as contas de eletricidade e água por um mês. Ou não pagamos e compramos comida. Ou não comemos nem temos nossos serviços de luz e água, e pagamos a conta de celular com atraso. Ou não fazemos nada disso. Como em Porto Rico, onde os furacões e suas ameaças nos deixam sem serviços de água potável, eletricidade, telecomunicações, e com alimentos de origem duvidosa. Melhor, transamos bêbados no olho do furacão. Ele, despedido de uma empresa que faliu. Eu, com dois trabalhos que não valem um, um ventre vazio de filhos e alguns poemas com poucas palavras. Os bancos não entendem de conversão de moedas. 400 novos sóis são mais de um ano de amanhecer.

 

 

Mitopoiesis

Aquel día llegó con una carta de desalojo en las manos. Fue así como el horno, las gavetas, las cortinas y los zapatos dejaron de aparecer en aquellos poemas domésticos.

 

Mitopoeia

Aquele dia chegou com uma carta de despejo nas mãos. Foi assim que o forno, as gavetas, as cortinas e os sapatos deixaram de aparecer naqueles poemas domésticos.

 

 

La adultez

A veces busco pretextos
para entrar en las oficinas
y en los centros comerciales
para coger un poco
de aire acondicionado.
Al principio da placer
hacer trampa.
La cara no suda.
Incluso, los dedos
de los pies en las sandalias
agradecen el gesto
y hasta se ven limpios
inmaculados.
Pero es mucho el sentimiento
de culpa que dan la burocracia
y el consumo.
Salgo rápido de esos lugares.
Afuera, el frío es otro.
No porque baje la temperatura
fuera de las alcaldías y
los supermercados.
Cualquiera queda frío
cuando siente hambre
—o ya ha comido—
y quiere ir a llorar
a la falda de su madre
y sólo nos queda eso
su falda.

 

A vida adulta 

Às vezes, procuro desculpas
para entrar em escritórios
e centros comerciais
para aproveitar um pouco
o ar condicionado.
No começo, dá prazer
trapacear.
O rosto não sua.
Inclusive, os dedos
dos pés nas sandálias
agradecem o gesto
e até estão limpos
imaculados.
Mas é grande
a culpa que a burocracia
e o consumo causam.
Saio rápido desses lugares.
Lá fora, o frio é outro.
Não porque diminua a temperatura
fora das prefeituras e
dos supermercados.
Qualquer um sente frio
quando tem fome
– ou já comeu –
e quer chorar
sobre a saia de sua mãe
e só sobra isso
sua saia.

 

Apéndice XX sobre Harold Bloom

No sé cuántas personas en la isla todavía memorizan poemas. Ahora se enciende el teléfono, se busca lo que se desea encontrar con uno o dos clicks, se lee, se cierra y  poema olvidado. La memoria ya no hace falta.  Mnemea who?

Yo sí memorizo poemas. Los míos y los poemas de otros, que me gustan mucho. Mi madre memorizaba poemas, y me los enseñaba desde pequeña. Así fue cómo memoricé textos de José P.H. Hernández, Pablo Neruda, y Julia de Burgos a los cinco años. En la adolescencia, me interesaban los poemas de Emily Dickinson y Dorothy Parker. Indian Summer fue mi mantra en la escuela superior. Memorizar un poema es sentirlo parte de tu cuerpo. Si no hay papel, libro, computadora o teléfono celular, el poema está en tu cuerpo. Se dice que la poesía es memoria. Eso lo sabían los juglares. Memorizar un poema lo hace tuyo, porque, la mayoría de las veces lo recitas con palabras de menos, o palabras sinónimas, y le cambias o creas versiones/traducciones /traslaciones de ese poema en tu memoria, sin darte cuenta.

Ya de adulta, oí a Harold Bloom hablar de poesía en una entrevista. Hablaba de memorizar poemas y lo describía como to possess a poem by memory. La palabra posesión me llevó a la palabra carencia. De repente comprendí, que de todas las posesiones, aquella de la que no te puedes desprender ni tampoco puedes llevártela a la tumba es la que se ha instalado en tu memoria por instancias prolongadas. Eso, en verso o no, es el poema.

 

Apêndice XX sobre Harold Bloom

Não sei quantas pessoas em Porto Rico ainda memorizam poemas.  Agora, liga-se o celular, busca com um ou dois cliques o que se deseja encontrar, lê, fecha e o poema é esquecido. A memoria já não faz falta. Mnemea who?

Eu, sim, memorizo poemas. Os meus e os poemas que gosto, de outras pessoas. Minha mãe memorizava poemas e me ensinava, quando eu era pequena. Foi assim que, aos cinco anos, memorizei textos do José P.H. Hernández, Pablo Neruda, e Julia de Burgos. Na adolescência, me interessavam os poemas de Emily Dickinson e Dorothy Parker. Indian Summer foi meu mantra durante a graduação. Memorizar um poema é senti-lo parte do seu corpo. Se não há papel, livro, computador ou celular, o poema está em seu corpo. Dizem que a poesia é memória. Isso sabiam os menestréis. Memorizar um poema torna-lo seu porque, na maioria das vezes, o recita com menos palavras ou com sinônimos e o muda ou cria versões/traduções desse poema em sua memória, sem perceber.

Já adulta, ouvi Harold Bloom falar sobre poesia em uma entrevista. Ele falava sobre memorizar poemas e descrevia isso como to possess a poem by memory. A palavra posse me levou à palavra carência. De repente, compreendi que de todas as posses, aquela da qual não se pode libertar e nem levar ao túmulo, é a que instalou em sua memória com perseverança. Isso, com versos ou não, é a poesia.

 

 

Cindy nasceu em São Sebastião, Porto Rico, em 1978. É autora dos livros de poesia Tegucigalpa (Erizo Editorial, 2013), 400 nuevos soles (Atarraya Cartonera, 2014), Islandia (Editorial EDP University, 2015); da crônicaEn San Sebastián, su pueblo y el mío (EDP University: 2015), e El gran cheeseburger y otros poemas con dientes, livro de poesia para a infancia precoce e tardia (Ediciones Aguadulce / Trabalis Editores, 2015). O número 50 da revista Punto en línea da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) publicou uma antologia de sua poesia entitulada A noche soñé que tenía seis años. Textos seus foram publicados em Tierra Adentro (México: Conaculta), Metrópolis (México), Transtierros(Perú), La Galla Ciencia (España), International PoetryReview: Puerto RicanIssue(EEUU), La Jiribilla (Cuba), Revista del Instituto de Cultura Puertorriqueña (Puerto Rico), entre outras, e também nas antologias Los prosaicos dioses de hoy (Puerto Rico: La secta de los perros), Calibrar la voz (Cuba: Encaminarte), entre outras. É colaboradora da revista La Ventana da Casa das Américas (Cuba), com uma coluna sobre a literatura latino-americana atual. É editora da Ediciones Aguadulce, bibliotecária e professora universitária.

Mantém o blog Apócrifos inflables.

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