rotações por minuto

Para Felipe Ferreira

é como encontrar
o caminho de casa

sem mapas bússolas gps

conhecer os seus discos
decorar as canções

as rotas vão ficando maiores

o esquema se torna
automático

tão rapidamente.

conhecer os seus discos
decorar as canções

é como encontrar
o caminho de casa

entre as rotações na velha
vitrola, as marcações mentais que fazemos

percebo que tua alma
flui
até mim

entre as pausas
aquele silêncio.

talvez pareça simples
estar à vontade

tocar um instrumento
sem olhar                fixamente                para os próprios dedos

mas calculei o preço

conhecer os seus discos
decorar as canções

é encontrar
o caminho de uma casa

construída sobre um terreno emprestado
mas tão meu:

rotações na velha
vitrola, marcações mentais que fazemos

 when you come back home
i’m gonna dance with you

entre as pausas
morar neste silêncio.

Livro de Sete Cabeças

header-fb

Release escrito por Leandro Jardim.

No próximo dia 12 de março, às 17h, acontecerá no Patuscada Bar e Livraria o evento de lançamento do “Livro de Sete Cabeças”, que reúne onze dos principais autores do blog.

Nascido em 2006, o Blog de Sete Cabeças publicou um poema por dia durante um período de seis anos. Uniu poetas de diferentes regiões, idades e gêneros, diferentes maneiras de conceber e fazer poesia, diferentes origens e diferentes destinos. Com o tempo, mais e mais poetas foram se juntando aos sete autores originais, formando um verdadeiro painel de geração.

No blog, cada poeta era dono de um dia da semana. Assim, o livro está organizado a partir do número sete que representa os sete dias da semana. Mas no agora é diferente. É cada dia da semana que tem os poetas todos para si, e não o contrário. Mandam os dias. Há poemas domingueiros, poemas com no fluxo rítmico de uma quarta-feira, ou com a expectativa festejante das sextas.

Se em um segundo pode caber uma vida inteira, como dizem, nessa semana que é o Livro de Sete Cabeças cabe a vida inteira de um blog. Tem sempre algo que fica de fora, claro, mas isso é apenas outra parte instigante do mistério. Tudo o que foi o blog continua vivo, à mera distância de uns cliques. O que temos no livro, portanto, é um belo retrato dele, talvez o registro fotográfico de uma época. Uma época boa à beça nos versos e rimas deste Blog de Sete Cabeças.

Os autores:

Hoje, alguns dos escritores presentes na coletânea já contam livros publicados, alguns exploraram outros gêneros, há os que editam revistas literárias, que comandam bandas de rock, trabalham como revisores, designers, programadores, engenheiros, professores. Uns seguem produzindo em papel ou Internet e uns rumaram por caminhos diversos. Mas o que importa são os textos, a poesia, em sua beleza ao mesmo tempo inútil e imprescindível. E são estes seus autores, em ordem alfabética: Alexandre Beanes, Elaine Lemos, JF de Souza, Leandro Jardim, Lubi Prates, Luiz Guilherme Amaral, Marina Rabelo, Moacir Caetano, Múcio Góes, Nathalie Lourenço e Sandra Regina.

 

Evento de lançamento:

Dia 12/3 – 17h
Patuscada Bar e Livraria
Rua Luis Murat, 40
Pinheiros – São Paulo – SP

O Blog de Sete Cabeças:

http://blogdesete.blogspot.com.br/

Sobre de cada autor:

  • Alexandre Beanes – Baiano, azul. Acredita piamente que Vinicius, Quintana e Leminski formam a Santíssima Trindade. Hilda Hilst é Nossa Senhora e Liniers, apesar de argentino, pintou a Santa Ceia.
  • Elaine Lemos – Nasceu em São Paulo, no finalzinho da década de setenta. Mas foi em uma cidade do interior de Minas Gerais, aos nove anos, estimulada pela professora “tia” Joana, que decidiu ser escritora quando crescesse. A poesia apareceu em algum momento, muitos anos mais tarde, depois de ter estudado eletrônica e física. Mesmo tendo percorrido um caminho predominantemente de números, não perdeu seu amor pelas letras. Tornou-se mãe e descobriu que esta é a coisa mais poética que pode ser. Alguns de seus poemas estão no empoeirado blog duaspartes.blogspot.com.
  • JF de Souza – Nasceu em Sorocaba, no interior paulista, em 1981. Desde que se entende por gente (até os dias de hoje), as palavras e seu bom uso são um desafio para ele. Assim, começou – tardiamente – a brincar de poesia com elas nos idos de 2003. E brinca até hoje. Algumas dessas brincadeiras estão no livro “Dantes, Durantes e Depois” (2013). Outras foram publicadas na Revista Parênteses. E muitas delas estão em seu blog, escuchameporra.blogspot.com.br.
  • Leandro Jardim – É escritor de poesia, prosa e letra de canção. Seus livros mais recentes são “Peomas” (poesia, 2014) e “Rubores” (contos, 2012). Possui textos publicados nas antologias “Veredas – panorama do conto contemporâneo”, “Para Copacabana, com amor” e “Porto do Rio”. Lançou, em parceria com Rafael Gryner, os EP’s “O Sonhador” e “Sementes musicais para um mundo cibernético”, e tem parcerias musicais com Diogo Cadaval (banda Mocambo), Clara Valente e Matheus Von Kruger. Considera a participação no Blog de Sete Cabeças uma etapa fundamental e muito afetiva de sua trajetória até aqui.
  • Lubi Prates – Nasceu em 86, em São Paulo. Estudante de Psicologia. Tem publicado o livro ‘coração na boca’ (2012, Editora Multifoco) e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Escreve no blog coração-na-boca.blogspot.com . Edita a Parênteses, revista literária virtual, e traduz.
  • Luiz Guilherme Amaral – Sorocabano de nascimento, mairinquense de criação. Seu exercício é colocar na boca das pessoas o que elas gostariam de dizer para seus amores.
  • Marina Rabelo – É cearense, mas mora em Natal desde criança e considera-se natalense com todos os sotaques. Participou de alguns concursos literários onde obteve menção honrosa, como no concurso Luís Carlos Guimarães em 2013, e o terceiro lugar no concurso de poesia da Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco – em 2012. Lançou o livro de poesia Por Cada Uma (2011, Editora Una) com mais 4 poetas potiguares.
  • Moacir Caetano – É um goiano comedor de pequi, doido da Silva. Além de ser pai do Davi, cursa pós-graduação, fala quatro línguas, joga tênis, escreve poesias, desenha, fotografa, apresenta um programa de rádio, organiza eventos, é fundador e diretor do Coletivo Panela Nova, finge que toca baixo na Rapsódia, compõe, ouve rock ’n roll em quantidades industriais e bebe Heineken. Bastante. Nas horas vagas, trabalha como engenheiro civil. Não fica parado nem por um segundo.
  • Múcio Góes – Poeta pernambucano, vizinho de ascenso a alceu, adestrador de palavras ao vento, professor de línguas extintas, desenhista de nuvens. Um dos pais desse blog que foi o propulsor de grandes amizades regadas à letras & poesia.
  • Nathalie Lourenço – É paulista e paulistana desde 1984. Teve textos publicados nas revistas Flaubert, Parênteses, Vacatussa e Blecaute, e na coletânea Edifício Marques de Sade (Editora Valer). Escreve, ainda que raramente, no blog sabedoriadeimproviso.wordpress.com
  • Sandra Regina – Formada em Letras pela FFLCH-USP, atua há mais de 25 anos na área editorial. Publicou, pela Editora Limiar, “O texto sentido” (2008) e “haicaos” (2012), com Múcio Góes. Em 2015, pela Editora Reformatório, “Visita íntima”. Seus textos estão também em seu blog “feitaemversos.blogspot.com”, e-books, antologias e revistas.

Traduções de Cindy Jiménez-Vera

Cindy Jiménez Vera 2015

Recentemente, traduzi, a pedido da Mallarmargens, poemas da Cindy Jiménez-Vera.

 

400 nuevos soles

Un periódico latinoamericano informa que Perú ofrece una bonificación de 400 nuevos soles a los empleados de gobierno que obtienen un grado universitario. Tengo tres de esos. Si hago la conversión de moneda, 400 nuevos soles peruanos son aproximadamente 153 dólares estadounidenses. Con eso, mi pareja y yo pagamos las facturas de electricidad y del agua por un mes. O no las pagamos y compramos comida. O no comemos ni tenemos servicios de luz y agua, y pagamos la cuenta del celular con algunos atrasos pendientes. O no hacemos nada de eso. Igual en Puerto Rico los huracanes y sus amenazas, nos dejan sin servicios de agua potable, electricidad, telecomunicaciones, y con alimentos de reputación dudosa. Mejor, fornicamos borrachos en el ojo de la tormenta. Él, despedido de una compañía que se fue a la quiebra. Yo, con dos trabajos que no suman uno, un vientre despoblado de hijos y algunos poemas con pocas palabras. Los bancos no saben de conversión de monedas. 400 nuevos soles es más de un año de amaneceres.

 

400 novos sóis

Um jornal latino-americano informa que o Peru oferece uma bonificação de 400 novos sóis para os empregados do governo que tiverem graduação. Eu tenho três. Se faço a conversão de moeda, 400 novos sóis peruanos são, aproximadamente, 153 dólares. Com esse dinheiro, meu par e eu pagamos as contas de eletricidade e água por um mês. Ou não pagamos e compramos comida. Ou não comemos nem temos nossos serviços de luz e água, e pagamos a conta de celular com atraso. Ou não fazemos nada disso. Como em Porto Rico, onde os furacões e suas ameaças nos deixam sem serviços de água potável, eletricidade, telecomunicações, e com alimentos de origem duvidosa. Melhor, transamos bêbados no olho do furacão. Ele, despedido de uma empresa que faliu. Eu, com dois trabalhos que não valem um, um ventre vazio de filhos e alguns poemas com poucas palavras. Os bancos não entendem de conversão de moedas. 400 novos sóis são mais de um ano de amanhecer.

 

 

Mitopoiesis

Aquel día llegó con una carta de desalojo en las manos. Fue así como el horno, las gavetas, las cortinas y los zapatos dejaron de aparecer en aquellos poemas domésticos.

 

Mitopoeia

Aquele dia chegou com uma carta de despejo nas mãos. Foi assim que o forno, as gavetas, as cortinas e os sapatos deixaram de aparecer naqueles poemas domésticos.

 

 

La adultez

A veces busco pretextos
para entrar en las oficinas
y en los centros comerciales
para coger un poco
de aire acondicionado.
Al principio da placer
hacer trampa.
La cara no suda.
Incluso, los dedos
de los pies en las sandalias
agradecen el gesto
y hasta se ven limpios
inmaculados.
Pero es mucho el sentimiento
de culpa que dan la burocracia
y el consumo.
Salgo rápido de esos lugares.
Afuera, el frío es otro.
No porque baje la temperatura
fuera de las alcaldías y
los supermercados.
Cualquiera queda frío
cuando siente hambre
—o ya ha comido—
y quiere ir a llorar
a la falda de su madre
y sólo nos queda eso
su falda.

 

A vida adulta 

Às vezes, procuro desculpas
para entrar em escritórios
e centros comerciais
para aproveitar um pouco
o ar condicionado.
No começo, dá prazer
trapacear.
O rosto não sua.
Inclusive, os dedos
dos pés nas sandálias
agradecem o gesto
e até estão limpos
imaculados.
Mas é grande
a culpa que a burocracia
e o consumo causam.
Saio rápido desses lugares.
Lá fora, o frio é outro.
Não porque diminua a temperatura
fora das prefeituras e
dos supermercados.
Qualquer um sente frio
quando tem fome
– ou já comeu –
e quer chorar
sobre a saia de sua mãe
e só sobra isso
sua saia.

 

Apéndice XX sobre Harold Bloom

No sé cuántas personas en la isla todavía memorizan poemas. Ahora se enciende el teléfono, se busca lo que se desea encontrar con uno o dos clicks, se lee, se cierra y  poema olvidado. La memoria ya no hace falta.  Mnemea who?

Yo sí memorizo poemas. Los míos y los poemas de otros, que me gustan mucho. Mi madre memorizaba poemas, y me los enseñaba desde pequeña. Así fue cómo memoricé textos de José P.H. Hernández, Pablo Neruda, y Julia de Burgos a los cinco años. En la adolescencia, me interesaban los poemas de Emily Dickinson y Dorothy Parker. Indian Summer fue mi mantra en la escuela superior. Memorizar un poema es sentirlo parte de tu cuerpo. Si no hay papel, libro, computadora o teléfono celular, el poema está en tu cuerpo. Se dice que la poesía es memoria. Eso lo sabían los juglares. Memorizar un poema lo hace tuyo, porque, la mayoría de las veces lo recitas con palabras de menos, o palabras sinónimas, y le cambias o creas versiones/traducciones /traslaciones de ese poema en tu memoria, sin darte cuenta.

Ya de adulta, oí a Harold Bloom hablar de poesía en una entrevista. Hablaba de memorizar poemas y lo describía como to possess a poem by memory. La palabra posesión me llevó a la palabra carencia. De repente comprendí, que de todas las posesiones, aquella de la que no te puedes desprender ni tampoco puedes llevártela a la tumba es la que se ha instalado en tu memoria por instancias prolongadas. Eso, en verso o no, es el poema.

 

Apêndice XX sobre Harold Bloom

Não sei quantas pessoas em Porto Rico ainda memorizam poemas.  Agora, liga-se o celular, busca com um ou dois cliques o que se deseja encontrar, lê, fecha e o poema é esquecido. A memoria já não faz falta. Mnemea who?

Eu, sim, memorizo poemas. Os meus e os poemas que gosto, de outras pessoas. Minha mãe memorizava poemas e me ensinava, quando eu era pequena. Foi assim que, aos cinco anos, memorizei textos do José P.H. Hernández, Pablo Neruda, e Julia de Burgos. Na adolescência, me interessavam os poemas de Emily Dickinson e Dorothy Parker. Indian Summer foi meu mantra durante a graduação. Memorizar um poema é senti-lo parte do seu corpo. Se não há papel, livro, computador ou celular, o poema está em seu corpo. Dizem que a poesia é memória. Isso sabiam os menestréis. Memorizar um poema torna-lo seu porque, na maioria das vezes, o recita com menos palavras ou com sinônimos e o muda ou cria versões/traduções desse poema em sua memória, sem perceber.

Já adulta, ouvi Harold Bloom falar sobre poesia em uma entrevista. Ele falava sobre memorizar poemas e descrevia isso como to possess a poem by memory. A palavra posse me levou à palavra carência. De repente, compreendi que de todas as posses, aquela da qual não se pode libertar e nem levar ao túmulo, é a que instalou em sua memória com perseverança. Isso, com versos ou não, é a poesia.

 

 

Cindy nasceu em São Sebastião, Porto Rico, em 1978. É autora dos livros de poesia Tegucigalpa (Erizo Editorial, 2013), 400 nuevos soles (Atarraya Cartonera, 2014), Islandia (Editorial EDP University, 2015); da crônicaEn San Sebastián, su pueblo y el mío (EDP University: 2015), e El gran cheeseburger y otros poemas con dientes, livro de poesia para a infancia precoce e tardia (Ediciones Aguadulce / Trabalis Editores, 2015). O número 50 da revista Punto en línea da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) publicou uma antologia de sua poesia entitulada A noche soñé que tenía seis años. Textos seus foram publicados em Tierra Adentro (México: Conaculta), Metrópolis (México), Transtierros(Perú), La Galla Ciencia (España), International PoetryReview: Puerto RicanIssue(EEUU), La Jiribilla (Cuba), Revista del Instituto de Cultura Puertorriqueña (Puerto Rico), entre outras, e também nas antologias Los prosaicos dioses de hoy (Puerto Rico: La secta de los perros), Calibrar la voz (Cuba: Encaminarte), entre outras. É colaboradora da revista La Ventana da Casa das Américas (Cuba), com uma coluna sobre a literatura latino-americana atual. É editora da Ediciones Aguadulce, bibliotecária e professora universitária.

Mantém o blog Apócrifos inflables.