autocartografia

localizar no meu corpo
com uso de coordenadas
um ponto para acomodar esta dor.

um ponto     exato    para acomodar esta dor
onde ela já não doa tanto
até diminua
talvez se autodestrua

e eu sequer perceba.

localizar no meu corpo
com uso de bússola
um ponto para acomodar esta dor.

mas esse território que sou
quase inteiro marcado riscado avolumado
por cicatrizes se mapeou.

localizar no meu corpo
com uso deste mapa
um ponto para acomodar esta dor.

um ponto     exato     para acomodar esta dor

um ponto entre esse rasgo do norte da minha boca
e o sul do meu ventre

um ponto entre as feridas do leste e oeste esquecidos nas pontas dos meus dedos

um ponto     desocupado     entre minha cabeça e os pés
para acomodar esta dor

onde ela já não doa tanto
até diminua
talvez se autodestrua

ou eu apenas esqueça.

Para João Gabriel Oliveira.

você está na Rússia
onde sempre quis estar.

você está na Rússia
onde eu nunca estive.

assim, eu não posso precisar
a temperatura do seu corpo
neste inverno. assim, eu não posso precisar
se o branco do seu corpo, tão conhecido,
se confunde com a paisagem que você escolheu
e não sou.

você está na Rússia
onde eu nunca estive.

assim, eu não posso precisar
se as suas lágrimas
caso caiam
serão quentes, como aquelas que eu lambi, ou
imitarão flocos de neve indo ao chão.

você está na Rússia
onde sempre quis estar.

e eu continuo no Brasil
mas é um Brasil
que você jamais conheceu.

assim, você não pode precisar
se aqui agora minha carne apanha.
assim, você não pode precisar
se minha carne ainda tem aquela cor bronze possível em
30 graus ou se já é aquela carne apodrecida por resistir.

você está na Rússia
onde eu nunca estive.

e eu continuo no Brasil
mas é um Brasil
que você jamais conheceu.

assim, você não pode precisar
se caem lágrimas, quentes ou frias
dos meus olhos. assim, você não pode precisar
se é uma secura sem fim
embora não faltem motivos e ou vontade
de chorar.

você está na Rússia
onde sempre quis estar,
onde eu nunca estive.

eu continuo no Brasil,
um Brasil que você jamais conheceu.

Livrar-se: a jornada do escritor, em São Paulo

parece que o ano finalmente começou, não é mesmo? bora tirar a poeira dos planos e colocá-los para tomar um solzinho, enquanto  há verão.

é assim pra mim também! nas próximas semanas, falarei um pouco mais sobre oficinas e cursos que ministrarei em breve.

para começar, um projeto que amo, o Livrar-se: a jornada do escritor: a internet revolucionou o meio literário. há 20 anos atrás, no Brasil, era impensável alguma forma de publicação além do famoso papel, com alguma editora que se interessasse em investir no nosso trabalho de escritor. a labuta era árdua!

hoje, temos diversas formas de publicação, incluindo a possibilidade de se autopublicar, em zines e e-books, por exemplo. dependemos menos de editores e editoras. então, em contrapartida, ficam algumas perguntinhas em nossas mentes: como nos lançarmos nesse mar de possibilidades surgidas pós-anos 2000? quais as melhores ferramentas para chegarmos até o público dos nossos escritos?

assim, estou juntando pessoas que escrevem para participar do Livrar-se: a jornada do escritor e discutir, sobre nós-escritores (qual nossa voz?) e, a partir daí, pensarmos nos meios mais interessantes de nos livrarmos (carinhosamente) de nossa produção literária: livros, e-books, zines, revistas literárias, blogs e sites pessoais, redes sociais, entre otras cositas.

o Livrar-se: a jornada do escritor acontecerá em duas turmas:

presencial, em São Paulo, às quartas, das 14:00 às 16:00 e
virtualmente, em e-group, para quem mora fora das nossas redondezas 🙂

serão oito encontros, iniciando dia 1 de abril.

o investimento para a turma presencial é de 500 reais.
já para a turma virtual, o investimento é de 250 reais e ambos podem ser parcelados.

mais informações e inscrições para a turma virtual por: lubiprates@gmail.com

inscrições para a turma presencial, através do CINESE: http://www.cinese.me/encontros/livrar-se-a-jornada-do-escritor

tá esperando o quê? corre porque as vagas são limitadas!

compartilhe com seus amigos. 🙂

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Minicurso: As poetAs brasileirAs

Quem me conhece, sabe que insisto na questão: o espaço das mulheres dentro da literatura.

Não apenas dentro da literatura, acredito que, infelizmente, estamos longe de termos espaços igualitários para mulheres e homens.

Assim, comecei a pesquisar poetas que, por questões estéticas, temáticas ou sociais, são ignoradas pela história da literatura. São inúmeras. Acredito que resgatar essas poetas é uma questão atual de resistência.

Por isso, criei o minicurso: as poetas brasileiras. Três encontros quinzenais, nas manhãs de sábado, com um café da manhã delicioso. Falaremos sobre poetas desde os anos 1700 até os dias atuais.

Inscrições através do Cinese.

Vem, vem, vem!

 

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Traduções de Ingrid Bringas

conheci a poeta mexicana Ingrid Bringas por acaso. numa noite rolando o facebook, vi um post com seu poema Retrato de família y me encanté. o traduzi em seguida e postei: o encantamento foi geral.

abaixo, alguns poemas com suas traduções, feitas por mim. foram publicados também em mallarmargens.

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NADA ME HA SIDO AJENO

Perdimos el rastro de nosotros el significado de nosotros diáspora
el amor no ha sido atendido
tenemos una habitación en el pecho un corazón de cerdo
una tierra que nos ha sepultado todos estos años llena de sueños
/espantosos
de risas de una fiesta que nunca termina
yo los oigo gritar con su piel anaranjada de frente al sol
y su pregunta es:
¿que has desenterrado de ti todos estos años?
mi tercer ojo me dice que nunca he estado sola
que sólo lo que queda es el rastro de nosotros
(exilio, exilio)
nada de lo que sepulte debe morir.

NADA ME FOI ALHEIO

Perdemos o rastro do nós o significado do nós diáspora
o amor não foi atendido
temos uma casa dentro do peito um coração de porco
uma terra cheia de sonhos que nos sepultou todos estes anos
/espantosos
de risos de uma festa que nunca acaba
eu os ouço gritar com sua pele alaranjada em frente ao sol
e sua pergunta é:
o que desenterrou de si todos estes anos?
meu terceiro olho me disse que nunca estive sozinha
que só o que permanece é o rastro do nós
(exílio, exílio)
nada que seja sepultado deve morrer.

RETRATO DE FAMILIA

Cuando sea grande quiero bailar como mi madre
amar como mi madre
gritar como mi madre
sonreír como el perro que nunca tuvo
ponerme su falda y decir: casi soy como mi madre
más desquiciada, menos amada
más alta que mi madre
quiero tener los pómulos de mi madre

callar como mi madre mas no estar ausente

llevar en el pecho escorpiones, cigarros doblados por el peso del olvido

esas piernas que son dos murallas

recógeme debajo de la cama madre quiero tener tus ojos de madera.

RETRATO DE FAMÍLIA

Quando eu for grande quero dançar como minha mãe
amar como minha mãe
gritar como minha mãe
sorrir como o cachorro que nunca teve
vestir sua saia e dizer: quase sou como minha mãe
mais esquecida, menos amada
mais alta que minha mãe
quero ter as maçãs do rosto de minha mãe
calar como minha mãe, mas sem estar ausente
levar no peito escorpiões, cigarros dobrados pelo peso do esquecimento
as pernas que são duas muralhas
me busque debaixo da cama mãe quero ter seus olhos de madeira.

BETA O VHS

Un video porno también es un poema
las cámaras de TV están tristes
un poema es migajas para pájaros
el porno es una bufanda tejida para extraños
te muerde la mano el dolor visionario del futuro
no te dice nada la canción prohibida, las heridas de tu ciudad
un video porno también es un poema
donde escuchas voces interiores, un campo minado de nostalgia
amarnos de muerte natural
porque el amor es un grito consumido en la niebla
un video porno también es un poema que le pone un altar a nuestros
/cuerpos deformes.

BETA OU VHS

Um vídeo pornô também é um poema
as câmeras televisivas estão tristes
um poema é migalhas para pássaros
pornô é um lenço tecido para estranhos
a dor visionária do futuro te morde a mão
a canção proibida não te diz nada, as feridas da sua cidade
um vídeo pornô também é um poema
onde se escuta vozes interiores, um campo minado de saudades
nos amarmos de uma morte natural
porque o amor é um grito que ressoa na névoa
um vídeo pornô também é um poema que colocamos no altar
/corpos disformes.

CUL DE SAC

Créele a todas las cucarachas
Créele a todos los muertos que conocen tus poros cuánto te amo
porque en el amor está el vicio
risa de lince
puedes poseer toda mi tierra sus asfaltos y fábricas
¿a quién perteneceré cuando me muera?
cuando mi aliento sea una ola que rompe la boca de los extraños
créele a las bombas

créele a los cuadernos que son memorias con los ojos cerrados
masticar las piedras cuando me muera eso quiero
el amor es una dama sumisa
créele a las voces de tu cabeza ellas te dirán que el amor es una
bolsa
de basura
créele a los pájaros mojados de tu boca
vocablo líquido
créele a el océano que no es el destino el que nos abraza.

BECO SEM SAÍDA

Creia em todas as baratas
creia em todos os mortos que conhecem seus poros e o quanto te amo
porque no amor estão os vícios
sorriso de lince
seu asfalto e suas fábricas podem tomar toda minha terra
quando morrer a quem pertencerei?
quando meu hálito for uma onda que quebra na boca de estranhos
creia nas bombas
creia nos cadernos que são lembranças de olhos fechados
quando morrer vou querer mastigas as pedras
o amor é uma dama submissa
creia nas vozes que habitam sua cabeça elas te dirão que o amor é um
saco
de lixo
creia nos pássaros molhados da sua boca
vocabulário líquido
creia no oceano que não é o destino o que nos abraça.

Ingrid Bringas (Monterrey, México. 1985) Poeta mexicana, colaborou com diversas revistas nacionais e internacionais. Suas publicações são: La edad de los salvajes (Editorial Montea, 2015), Jardín Botánico (Casa editorial Abismos, 2016),  Nostalgia de la luz (UANL, 2016).

+mais: aquiuma leitura maravilhosa do poema Nada me ha sido ajeno feita pela Marília Moschkovitch.